Arquivo de Abril 20, 2010

A Suave Pantera

Posted in Espiritualidade, Poesias, Xamanismo on Abril 20, 2010 by lapicta

A Suave Pantera

I
Como qualquer animal,
olha as grades flutuantes.
Eis que as grades são fixas:
Ela, sim, é andante.
Sob a pela, contida
– em silêncio e lisura –
a força do seu mal,
e a doçura, a doçura,
que escorre pelas pernas
e as pernas habitua
a esse modo de andar,
de ser sua, ser sua,
no perfeito equilíbrio
de sua vida aberta:
una e atenta a si mesma,
suavíssima pantera.

II
É suave, suave, a pantera,
mas se a quiserem tocar
sem a devida cautela,
logo a verão transformada
na fera que há dentro dela.
O dente de mais marfim
na negrura toda alerta,
e ser do princípio ao fim
a pantera sem reservas,
o fervor, a força lúdica
da unha longa e descoberta,
o êxtase da sua fúria
sob o melindre que a fera,
em repouso, se a não tocam,
como que tem na singela
forma que não se alvoroça
por si só, antes parece,na mansa, mansa e lustrosa
pelúcia com que se adorna,
uma viva, intensa jóia.

III
Uma intensíssima jóia,
do próprio sangue animada,
tão preciosa, tão preciosa,
que é preciso não tomá-la.
Que duro sangue a vermelha!
Que silêncio a não reparte!
Em si mesma reluzente
a inteira imobilidade.
Mas o ardor, esse deleita,
com que a jóia se transforma,
se se move, no animal
que a própria jóia comporta.
O cuidado – isso extasia –
com que a jóia se transmuta:
com patas, pernas e olhar
onde se extrema outra fúria.

IV
Mas é no amor que essa fúria
alcança de si o máximo.
À parte qualquer luxúria,
à parte a falta de tato,
se se alça e ganha a medida
de seu corpo todo casto,
há que lhe ver a esbelta e lisa
figura de todo lado,
quando toda se descobre
– como um cristal se estilhaça –
amando a vida, ai, amando
a vida que passa, passa.
Tão projetada num sonho,
nem se diria uma fera,
contida, casta e polida,
com tanto furor interno.
V
Com tanto furor interno,
quem a livra, quem a livra
de ser o seu próprio inferno,
de, pelo fogo da ira,
consumir-se estando quieta,
de acabrunhar-se sozinha.
Nem se diria uma fera!
Nem se diria rainha!
As patas pisando o chão
têm uma dura leveza,
os pelos brilhando de ônix,
– de si mesma prisioneira –
caminha de um lado a outro
como pelo mundo inteiro.
Há esmeraldas de silêncio
nos seus olhares acesos.
VI
O olhar tão aceso
revela, revela.
Que força de abismo
na virgem pantera.
Que força de amor
na sua recusa;
o ventre cerrado
– quem julga? quem julga?
e a sua ventura
violenta, sedenta,
ensaiados membros
em surda paciência.
É vaga e concreta,
como que inspirada:
flutua em si mesma,
parada, parada.
VII
Parada, parada,
quase se humaniza,
todo o viço de asas
na cara tranqüila,
flexuosa aspirando
– quem mata, quem mata?
Como uma pessoa
de forma coleada.
No entanto a narina,
no entanto a pupila
– relevos de sombra –
ah, se a denunciam
mais que uma pessoa,
poderosa e bela:
macia, macia,
esplêndida fera.
VIII
Esplêndida fera:
onírica e lúbrica
como pode às vezes
ser uma pantera.
Negra ela rebrilha,
presente a si mesma,
como se invadida
de uma luz avessa,
como adiamantada
de uma luz escura,
afoita e inefável
quem a subjuga?
Afoita e inefável
qual nenhuma besta,
cingida ao que em si
é a sua natureza.
IX
É da sua natureza
ser apenas o que a anima:
uma força elementar
como uma raiva contida,
uma violenta doçura
que bruscamente a delira
de si mesma, de si mesma,
– tão fogosa e volitiva!
Tão puramente animal
na graça oblíqua e felina!
Com uma forma tão espessa
que parece refluída.
Compraz-se em ser o seu corpo
com a mesma selvageria
com a mesma libação
todo o ímpeto se amotina.
X
A forma espessa da pantera,
um tal negrume e tal pelúcia,
às vezes quase que a confundem
com todas as demais panteras,
mas só naquilo que por fora
tem uma existência concreta,
naquilo só que se objetiva
formosamente sobre a relva:
olhos detidos de tão verdes,
corpo luzindo sobre as pernas,
um certo modo de mover-se
sobre si mesma, terna e quieta.
Porque ela é igual só a ela mesma,
se com ardor alguém a observa,
mas por dentro, tão escondida
como no fundo da ostra a pérola.
XI
Como no fundo da ostra e pérola
ela se deita veludosa,
mas anda com patas rebeldes
seu coração com uma glória.
Tem um ritmo de silêncio
a força com que ele desprega
as patas a cada momento,
numa espécie de ânsia secreta.
Violento é o sono do seu corpo,
mas sem aspereza nenhuma,
igual à queda de uma coifa
brusca e silente na verdura,
sem direção, igual à paina
mas uma paina concentrada,
mas uma paina vigorosa,
seu sono cego, cheio de asas.
XII
Se adormece a pantera
ou se acorda suavíssima,
é sempre a mesma fera
repousada e instintiva.
Há quem pense em veludo
ou cetim, contemplado
o pelame felpudo
e o deslizar tão brando.
Quieta ou em movimento,
há qualquer coisa nela
que lembra um monumento
pelo que ele revela:
um certo porte airoso
que o tempo não consome,
e um fruir-se gasoso,
que na fera é uma fome.
XIII
A fome de um bicho
– e mais se é pantera,
não tem o limite
que em gente tivera.
Não é como a fome
violenta, direta,
subjetiva, do homem,
a fome da fera.
A fome de um bicho
é cruel e eterna,
e toda inconsciente,
com uma força interna.
É fome indistinta
espalhada nela,
com íntima fúria
que ela não governa.
XIV
A liberdade da pantera
está justamente nisto:
que nem ela se governa,
e o que sucede é imprevisto.
Essa a vantagem da fera:
uma força que ela abriga,
inconsciente, dentro dela
– sob a aparência tranqüila –
e de repente se revela,
mas uma espécie de fúria,
que atinge inclusive a ela,
mas numa espécie de luta,
que é o modo que tem a cólera
de mostrar-se numa fera,
e que é a sua única forma
de ser pura, além de bela.
XV
Outra vantagem da pantera
é que sendo ela tão precisa,
tão colada ao próprio contorno,
não é, como um mastro, fixa,
e nem se aguça como um mastro,
apesar de constante e seca,
apesar de brilhante e fria
como um mastro ostentar sua seda,
apesar de picar-se toda
como um mastro, de luz marinha;
ela é flexível e se encolhe
(o que já não sucederia
com mastro algum) ou bem se alarga,
em contínuo fluxo e refluxo,
como a onda em espasmos de onda,
fiando-se no seu próprio fuso.
XVI
Além de precisa é ubíqua,
outra vantagem mais forte.
Por toda parte é sensível
sua graça, como um broche,
ou como coisa pousada
e em si mesma repentina:
os olhos onde violetas
cobram cores agressivas,
a cauda suspensa e lisa
como nuvem sossegada,
não solta, não qualquer nuvem,
nuvem presa como uma asa,
o corpo todo concreto,
todo animal, perecível,
e mais uma ânsia por dentro,
de ser livre, livre, livre.

Marly de Oliveira, 1960

Anúncios
%d bloggers like this: