Arquivo de Abril 30, 2010

Morte

Posted in Poesias, Reflexões on Abril 30, 2010 by lapicta

A Morte Absoluta
Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
A exangue máscara de cera,
Cercada de flores,
Que apodrecerão – felizes! – num dia,
Banhada de lágrimas
Nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante…
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: “Quem foi?…”

Morrer mais completamente ainda,
– Sem deixar sequer esse nome.

Manuel Bandeira

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Sobre Términos

Posted in Crenças Tradicionais Européias, Espiritualidade, Poesias, Xamanismo on Abril 30, 2010 by lapicta

Aos que celebram…desejo um excelente Samhain (ou Beltane).

É hora de partir, meus irmãos, minhas irmãs
Eu já devolvi as chaves da minha porta
E desisto de qualquer direito à minha casa.
Fomos vizinhos durante muito tempo
E recebi mais do que pude dar.
Agora vai raiando o dia
E a lâmpada que iluminava o meu canto escuro
Apagou-se.
Veio a intimação e estou pronto para a minha jornada.
Não indaguem sobre o que levo comigo.
Sigo de mãos vazias e o coração confiante.

Rabindranath Tagore

Mutação

Posted in Poesias on Abril 30, 2010 by lapicta

A navalha que as vezes açoita meu corpo
tem fio afiado,tem brilho forte de aço
cortando meus delírios,rasgando minha dor
lentamente sangra,me desfaço

Esta faca que atravessa meu peito
tem adjetivos próprios
substantivos abstratos
pronomes retos

Em cada cicatriz, desvenda mistério
em cada marca revela veneno
entre cortes e gritos
pressinto a queda e decadência do meu império

Nem sempre rainha,ou vassala
mulher mundana, serviçal
sangue nobre, ou plebéia
minha raiz guardo sempre igual

o que resta desta alma
marcada por loucuras outrora
emerge com candura
sublima, aflora, acalma

dissidente inconseqüente
determinada fielmente
destemida e febril
carrego nos poros
a essência de jamais ser vil.

(Neguinha Mucelli)

Via Crucis

Posted in Poesias, Reflexões on Abril 30, 2010 by lapicta

“E é inútil procurar encurtar caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos.

Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes. A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência.

A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta, é a glória própria de minha condição. A desistência é uma revelação.
Clarice Lispector

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