Arquivo de Abril, 2010

Erasmo de Rotterdam: Elogio da Loucura

Posted in Espiritualidade, Reflexões on Abril 28, 2010 by lapicta

[…]
Sou eu mesma, como vedes; sim, sou eu aquela verdadeira dispenseira de bens, a que os italianos chamam Pazzia e os gregos Mória. E que necessidade havia de vo-lo dizer? O meu rosto já não o diz bastante? Se há alguém que desastradamente se tenha iludido, tomando-me por Minerva ou pela Sabedoria, bastará olhar-me de frente, para logo me conhecer a fundo, sem que eu me sirva das palavras que são a imagem sincera do pensamento. Não existe em mim simulação alguma, mostrando-me eu por fora o que sou no coração. Sou sempre igual a mim mesma, de tal forma que, se alguns dos meus sequazes resumem não passar por tais, disfarçando-se sob a máscara e o nome de sábios, não serão eles mais do que macacos vestidos de púrpura, do que burros vestidos com pele de leão. Qualquer, pois, que seja o raciocínio feito para se mostrarem diferentes do que são, dois compridos orelhões descobrirão sempre o seu Midas. Para dizer a verdade, não estou nada satisfeita com essa gente ingrata, com esses perversos velhacos, porque, embora pertençam mais do que os outros ao nosso império, não só publicamente se envergonham de usar o meu nome, como muitas vezes chegam a aplicá-lo aos outros como título oprobioso. Portanto, sendo eles loucos e arquiloucos, embora assumam a atitude de sábios e de Tales, não teremos razão de chamá-los loucamente de sábios?
[…]
Nascida no meio de tantas delícias, não saudei a luz com o pranto, como quase todos os homens: mal fui parida, comecei a rir gostosamente na cara de minha mãe. Não invejo, pois, ao supremo Júpiter, o ter sido amamentado pela cabra Amaltéia, pois que duas graciosíssimas ninfas me deram de mamar: Mete, filha de Baco, e Apedia, filha de Pã. Ainda podeis vê-las, aqui, no consórcio das outras minhas sequazes e companheiras. Se, por Júpiter, também quereis saber os seus nomes, eu vo-lo direi, mas somente em grego. Estais vendo esta, de olhar altivo? É Filavtia, isto é, o amor-próprio. E esta, de olhos risonhos, que aplaude batendo palmas? É Kolaxia, isto é, a adulação. E, a outra, de pálpebras cerradas parecendo dormir? É Lethes, isto é, o esquecimento. E aquela, que se acha apoiada nos cotovelos, com as mãos cruzadas? É Misoponia, isto é, o horror à fadiga. E esta, que tem a cabeça engrinaldada de rosas, exalando essências e perfumes? É Idonis, isto é, a volúpia. E a outra, que está revirando os olhos lúbricos e incertos e parece dominada por convulsões? É Ania, isto é, a irreflexão. Finalmente, aquela, de pele alabastrina, gorducha e bem nutrida, é Trofís, isto é, a delícia. Entre essas ninfas, podeis distinguir ainda dois deuses: um é Komo, isto é, o riso e o prazer da mesa; o outro é Nigreton hypnon, isto é, o sono profundo. Acompanhada, pois, e servida fielmente por esse séquito de criados, estendo o meu domínio sobre todas as coisas, e até os monarcas mais absolutos estão submetidos ao meu império.
[…]
Tudo o que fazem os homens está cheio de loucura. São loucos tratando com loucos. Por conseguinte, se houver uma única cabeça que pretenda opor obstáculo à torrente da multidão, só lhe posso dar um conselho: que, a exemplo de Timão, se retire para um deserto, a fim de aí gozar à vontade dos frutos de sua sabedoria.

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Frase

Posted in Frases on Abril 27, 2010 by lapicta

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

recebi por e-mail do meu primo

Resolvi todos os problemas da minha vida: misturei Activia e Johnnie Walker.

“Agora tô cagando e andando…”

O Rebelde – Charles Baudelaire

Posted in Poesias on Abril 27, 2010 by lapicta

O Rebelde

Um anjo em fúria qual uma águia cai do céu;
Segura, a garra adunca, os cabelos do ateu
E, sacudindo-os, diz: “À regra serás fiel!”
(Sou teu Anjo guardião, não sabias?) És meu!

Pois é preciso amar, sorrindo à pior desgraça,
O perverso, o aleijado, o mendigo, o boçal,
Para que estendas a Jesus, quando ele passa,
Com tua caridade um tapete triunfal.

Eis o amor! Antes que a alma tenhas em ruínas,
Teu êxtase reaviva à glória e à luz divinas;
Esta é a Volúpia dos encantos Celestiais!

E o Anjo, que a um tempo nos exalta e nos lamenta,
Com punhos de gigante e anátema atormenta;
Mas o ímpio sempre diz: “Não serei teu jamais!”

Charles Baudelaire (tradução Ivan Junqueira e Jamil Haddad)

Ausência – Vinícius de Moraes

Posted in Poesias on Abril 27, 2010 by lapicta

Esse poema é lindo sim…mas de uma melancolia muito funda… faz tempo que eu o conheço e o mantive guardado… nunca o enviei a ninguém. 

A mim ele transmite uma tristeza ancestral…algo muito entranhado e mesclado…algo muito íntimo e frágil.

Na verdade, ele soa quase como uma maldição se for pensar bem… fala sobre situações únicas que se esgotam e nunca mais voltam a ocorrer… fala sobre a perda de uma maneira muito particular…a perda de algo que não se repete em uma mesma vida.

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinícius de Moraes

Quero escrever o borrão vermelho de sangue

Posted in Poesias on Abril 26, 2010 by lapicta

Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.

 Clarice Lispector

Passional

Posted in dia_a_dia, Reflexões on Abril 26, 2010 by lapicta

Encontrei um e-mail hoje quando eu estava organizando minhas mensagens…um que havia repassado a uma amiga um tempão atrás. Lembro que eu havia repassado ele  dizendo q era bem forte e que eu havia gostado bastante.

Minha concepção de forte é sempre relacionada a passionalidade…pq eu sou passional, sou intensa e totalmente extrema: se amo, é um amor forte, quente, que funde e une a mim e a quem amo num elo muito profundo e muito concreto, um negócio meio místico e que dá até medo (ah sim, me dá medo qdo sinto essas coisas…mas preciso delas como de ar, de água…preciso de sentimentos intensos e profundos). Se odeio tb, é algo totalmente inflamado e profundo, raivoso e denso…resumindo e repetindo: sou pura passionalidade.

Nunca gostei de mornidão ou pessoas mornas…minhas convicções sempre foram fortes, as expressões que uso são fortes, a maneira como que eu me apresento perante o mundo é altivo e algo chamativo (não por egocentrismo de me achar bonita… eu acho q sou uma mulher normal que tem seus atrativos, simplesmente) mas algo em mim sempre fez com que eu fosse notada onde quer que estivesse…sou a anti-social magnética, risos, todo mundo quer trocar umas palavrinhas comigo, rs, tem horas que é engraçado e outras nada engraçado (devido à cabeludice do que me dizem, rs).

Enfim, o texto que publico abaixo reflete bem o que é ser passional ao extremo (aliás, me vejo dizendo coisas muito semelhantes… êta Lua em Áries viu…rs)

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Retirado do blog Papinho de Cafa.

Todos.De Todos

Mito tempo. Aquilo que antes me fazia suspirar, fechar os olhos e sorrir indiretamente, acabou. Passou. Morreu. A sensação de estar sendo surpreendida a cada dia se foi. Tudo se tornou igual. Admito: Queria mais. Precisava de mais. Desejava o corpo e o que ele tinha a me oferecer e, ainda assim, queria mais.

Admito: Fingi. Enganei. Escondi. Pra que falar? Uma coisa sou eu, outra coisa é ele e outra bem diferente somos nós dois juntos. Não preciso ser eu quando estou com alguém. Sou quem eu quero ser naquele momento, com aquele um ou com aquele outro. Nunca a mesma pessoa com cada um.

Afirmo: Cada um merece algo diferente. Não haveria como eu ser igual. Cada um recebe um beijo com uma intensidade diferente. Cada um tem uma parte de mim, mas nunca, jamais conseguem ter tudo. Não são capazes, nunca serão.

Confesso: Eu vim pra destruir. Vim pra machucar. Vim pra fazer doer. Foi pra arder, pra ferir, pra cortar, pra rasgar da cabeça aos pés. É pra você sentir a dor, filho da puta. É pra você sentir a culpa. É pra doer na sua alma. É pra se arrepender, pra sentir doer como nunca antes foi capaz de sentir.

Te garanto: Vai doer, você vai chorar e sentir o gosto do arrependimento. Vai sentir a tal culpa. Quero que você sinta. Sim, você. Qualquer um de vocês. Vai aprender da pior maneira, pelo pior caminho. Será como pimenta nos teus olhos. E quando arder, não chore. Guarde a porra do choro pra si. Ninguém, principalmente eu, é obrigado a ver seu choro de marica.

Se ferre. Se cubra de tapas. Em seguida, pegue um papel e uma caneta. Escreva:

– Hoje eu sei o que eu causei. Consigo sentir a dor e a culpa. Não sou inocente. Admito tudo que fiz, mas sou covarde o bastante pra enfrentar isso. Fui covarde pra fazer o que fiz, esconder e negar, e continuo sendo o mesmo merda covarde de sempre. Um inútil, é isso que eu sou.

Pegue uma faca.
Enfie no peito e rasgue. Desfrute da dor, veja teu sangue. E morra.

Você não vai fazer isso, vai? Não vai. Você é covarde até pra isso. Antes de pegar a faca vai mudar o bilhete. Vai escrever que eu te matei, vai passar a culpa pra mim. Burro. Mal sabe você que quem te matou mesmo fui eu. De desgosto, de culpa, de remorso. Te persuadi, conduzi os seus movimentos perfeitamente e te fiz homem de verdade agora. Nesse momento. Aqui.

Você não vai chorar. Olhe pra mim, pegue aquela faca. Enfie no peito e rasgue. Desfrute da dor. Da SUA dor. Da dor que você mesmo causou a si e aos outros. Veja teu sangue, caia no chão. Me peça perdão. Ouça o meu NÃO, sinta a faca te rasgando inteiro e só então morra. Na minha frente, nos meus pés, como um saco de lixo. O lixo que você sempre foi. A coisa podre que você ainda é.

O Avesso

Posted in Poesias, Reflexões on Abril 26, 2010 by lapicta

Quer conhecer meu avesso?
Talvez possa não lhe agradar
Pode ser que o assuste
Ou lhe constranja em sua obviedade
Meu avesso é excêntrico
Não suporta o comum
Foge as regras e as convenções
É ousado e inventivo
Enfrenta os senões 
Não se incomoda com conceitos
Quanto menos com preconceitos
Cria seus próprios limites
Quando lhe convém tê-los
Pode surpreender aos desavisados
Pode encantar aos temerosos
Aqueles que no fundo admiram a coragem
Embora não a tenham dentro de si
Meu avesso é aquela que em mim habita
Mas nem sempre se mostra
Vive no escuro da noite
Se abriga nos porões da alma
Não é perversa, mas inversa
Forte e poderosa
Se esconde não por medo
Mas por precaução
É precavida em suas aparições
Não pode ser visível a qualquer momento
Pra que expor-se desnecessariamente?
Mas lá ela está e sobrevive
Alimentada pela outra em mim
Que se mostra e se expõe
Protegida e protetora
Quando necessário ela vem
E a força de mim se apodera

Ianê Mello

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