Arquivo de Maio 5, 2010

Sobre profundidades…superficialidades…

Posted in dia_a_dia, Espiritualidade, Reflexões on Maio 5, 2010 by lapicta

Hoje ao descer no horário de trabalho para fumar, havia um cachorro de rua deitado na sombra…estava descansando, com um aspecto cansado e sonolento. Passei por ele e fiz uma festinha…me fitou com olhos divertidos…um olhar caramelado como seu pêlo.

O segurança olhava para ele com olhos de pena, outras pessoas passavam perto dele sem nem ao menos notar sua presença e ele olhava tudo e todos cabreiro… como que entendendo tudo mas não se importando com isso. Todos passavam por ele como que muito avoados e ocupados…o único ser realmente consciente ali parecia o cachorro…todos os demais, correndo em busca de coisas abstratas por assim dizer… totalmente alheios aos detalhes ao redor… essa cena sinceramente me deu um nó na garganta.

Não apenas pelo cão na sua condição solitária, mas por nós também…que passamos uns pelos outros como se ali não houvesse ninguém…e me fez pensar na coisa terrível da condição humana…como nos mecanizamos uns perante os outros… como a insensibilidade reina no trato mútuo que temos… e como somos sós em essência por esse traço.

Temos posturas defensivas, inflamos o peito para nos dizer e fazer importantes, bancamos sabichões em tudo (trabalho, sexo, perante os outros) pq sermos apenas criaturas do mundo, sermos quem somos parece ser pouco…sempre precisamos estar um degrau à frente do outro, temos de brilhar mais, sermos únicos, termos sempre razão, sabermos mais que o outro, sermos especiais em algo pura e simplesmente porque somos anônimos no mundo e essa perspectiva causa transtorno.

Como assim eu não venho em missão extraordinária? Como assim eu sou uma criatura como todas as outras? Para muitos, isso é inadmissível, horrendo de ser imaginado.

Pobres desses na minha opinião…quando a gente se liberta de certas vaidades e de se auto-intitular importantes a liberdade te preenche…você se torna livre…se torna apenas quem é…sem fardos, sem expectativas…bicho homem na terra.

Nessa brincadeira da fogueira de vaidades e paixões mundanas, deixamos tanta coisa importante de lado… passamos pelo mundo como sombras da vida.

Corremos para trabalhar, para cumprir obrigações, preferimos viver de fachada ao invés de ir de encontro a trilhas não exploradas, ao invés da liberdade preferimos nos amarrar no estilo da parábola do elefante: um animal enorme preso a uma estaca no chão e que morria de medo do rato.

Esquecemos de amar, de rir, de olhar profundamente para os demais, de primeiro ofertar ao outro o que gostaríamos que nos ofertassem…deixamos de ser transparentes tantas e tantas vezes.

Na hora da fome da alma bancamos os ladrões distribuindo algumas ilusões para ganhar algum sentimento verdadeiro do outro…tantas e tantas vezes estar de verdade com alguém se torna vampirismo emocional….pois enquanto um está de corpo coração e alma o outro está apenas se alimentando desse sentimento real ofertado…o deserto do outro é tamanho q ele precisa se alimentar de algo real, pois existe muita fuligem interna.

Muitas vezes essa simbiose doente se estabelece pois sempre queremos sair ganhando e estar por cima…difícil optarmos pelo visceral da convivência, do sentir em cada fibra a entrega ao outro.

E eu poderia ficar aqui horas e horas escrevendo e dizendo e dizendo…não caberia.

Mas creio que todos chegamos num ponto em que algo real precisa ser embutido numa vida plástica.

Os que estão se sentindo num comercial de margarina para o Social e com um “Lado B” mais do que cabeludo…totalmente avesso…chegam num ponto de mudança, de virada de mesa. Talvez deve chegar quando o abismo nos engole…quando cordas ilusórias, relações superficiais e experiências vazias só trazem sabor amargo… nessa hora, só um Elo real pode lhe trazer à tona novamente… como o cachorro do começo do post…ele estava lá, para quem quisesse vê-lo e buscar sentir – nem que seja um pouquinho – do quanto colocamos de lado o imprescindível e ficamos com o imprestável.

 Ih, acordei densa hoje, rs.

Marcha – Cecília Meireles

Posted in Poesias on Maio 5, 2010 by lapicta

Foto: Muralha de Adriano – Escócia

As ordens da madrugada
romperam por sobre os montes:
nosso caminho se alarga
sem campos verdes nem fontes.
Apenas o sol redondo
e alguma esmola de vento
quebram as formas do sono
com a idéia do movimento.

Vamos a passo e de longe;
entre nós dois anda o mundo,
com alguns mortos pelo fundo.
As aves trazem mentiras
de países sem sofrimento.
Por mais que alargue as pupilas,
mais minha dúvida aumento.

Também não pretendo nada
senão ir andando à toa,
como um número que se arma
e em seguida se esboroa,
– e cair no mesmo poço
de inércia e de esquecimento,
onde o fim do tempo soma
pedras, águas, pensamento.

Gosto da minha palavra
pelo sabor que lhe deste:
mesmo quando é linda, amarga
como qualquer fruto agreste.
Mesmo assim amarga, é tudo
que tenho, entre o sol e o vento:
meu vestido, minha música,
meu sonho e meu alimento.

Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudade;
tenho visto muita coisa,
menos a felicidade.
Soltam-se os meus dedos ristes,
dos sonhos claros que invento.
Nem aquilo que imagino
já me dá contentameno.

Como tudo sempre acaba,
oxalá seja bem cedo!
A esperança que falava
tem lábios brancos de medo.
O horizonte corta a vida
isento de tudo, isento…
Não há lágrima nem grito:
apenas consentimento.

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