Arquivo de Novembro, 2010

Posted in Literatura, Poesias, Reflexões on Novembro 30, 2010 by lapicta

Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.
Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.
Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.
Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares.

Hilda Hilst

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Acidez Mental? Nem tanto…

Posted in dia_a_dia, Reflexões on Novembro 30, 2010 by lapicta

Andei conversando com alguns amigos sobre uma porção de fatos…de possíveis filosofias de vida, de comportamentos, de posicionamentos…enfim, sobre a teatralidade mesmo da nossa vida no dia-a-dia… e daí, divagações me ocorrem (minha cabeça é uma usina de idéias e reflexões…nem sempre de merda, espero, rsrsrs).

Eu poderia chegar nessa blog e ditar um monte de verdades impostas…como muitos fazem por ai (tanto no meio virtual como no real ) mas não faço isso, não possuo nem sou detentora de verdades, o que tenho são minhas experiências de vida, e que podem ser poucas perante a vida de tantos outros. E justamente por isso, é sempre importante nos olharmos como iguais pois nunca se sabe o quanto aprenderemos com alguém que vem e partilha de suas histórias conosco ou o banquete que você vai comer no prato que escarrou ou até se vai te cair na testa…em cheio no olho…

Poderia dizer que faço e aconteço, que minha suposta “figura poderosa” (HÁ…idiotas dos que se acham Poderosos)impõe respeito na vida e no trabalho (por talvez ser formadora de opinião, por ter algum cargo), entre os amigos (usando de artifícios de convencimento), nas relações sociais que eu venha a ter, firular e tudo o mais sobre ser isso ou aquilo, mas óbvio que não faço nem farei…cada qual tem de ser senhor de seu caminho, ter suas próprias idéias, conceber suas dúvidas e buscar suas respostas. Tudo o que é facilitado possui raízes fracas e na primeira seca, morre a semente que foi mal acostumada (pode-se pensar até na lagarta que se transforma em borboleta e que se tiver ajuda para sair do casulo fica com as asas fracas, impossibilitada de voar.), Então, não levo em conta nada que ninguém facilite nem acredito que eu possa fazer isso por alguém, mas se ainda assim for, não o faço.

É…sou difícil de agradar…e mais ainda de ser manipulada…so sorry mas sou Pensante…demais até.

Fui figura de certa forma pública no meio virtual durante curto período de tempo e sempre me mantive discreta para, e em seguida, ser mais discreta ainda. Também fui bem “comentada” em âmbitos profissionais…por ser estilo a “ONU” (como diria um amigo) ou por ser irrascível quase como um diabo de saias.

Sim, fui e sou polêmica e como dizia vovó, a famosa BOCUDA. Eu falo mesmo…não guardo nada para depois e quem quiser minha opinião sobre algo nem sempre vai ouvir o que gostaria…não sou o tipo de pessoa que é doce por convenções…mas existe algo acima de tudo: respeitar a opinião dos outros, ouvir, mensurar…mas gente vendida não tem vez…passa vergonha comigo mesmo.

Como absolutamente todo mundo nessa vida que possui um senso de humor muito do negro e excêntrico, encontrei e conheci gente maravilhosa e admirável como também dei azar de encontrar muita gente confusa, imatura, mal intencionada e cheia de veneno (reflexo da sociedade atual? Será?).

Ainda mantenho algumas amizades desses meios todos, outras sinceramente não fiz a menor questão de manter, uma vez que amizade e contato para mim é no seu mais real conceito, sem subterfúgios, sem motivos obscuros, sem ter que mentir para agradar e sem visar troca de nada que não fosse afeto e real elo humano e assim sendo, fiz minhas escolhas muito lúcida e conscientemente e com a certeza de estar seguindo meus instintos, intuição e coração ao fazê-las. Esse tipo de seletividade eu aplico e apliquei em tudo: amigos próximos, colegas, gente do meio virtual e até em relações de trabalho.

Nesses momentos de ruptura, onde você descobre visceralmente seus limites e os impõe aos que vivem perto de você sempre ultrapassando-os ou até te ultrajando por posturas que mais parecem caricaturas da vida real, existe o momento do caos e revolta… Houveram os que se revoltaram e entenderam os motivos seguindo com suas vidas, os que tentaram e talvez ainda tentem ludibriar onde houver espaço, sondar por sei lá qual motivo e até os que tentaram retomar amizade mesmo.

Algumas tentei e deu certo, outras não vi condições para isso pura e simplesmente pela questão da falta de verdade no elo existente…se nunca houve, por que haveria depois?

Se nós mudamos? certamente…mas existe algo maior que isso, e se chama nossa essência, então, essencialmente somos sempre os mesmos e não preciso tomar outra dose de um cálice envenenado para meus lábios e saber que não me apetece. Nada contra…somente que a mim não agradou….mas certamente agradará a outras pessoas. A vida é feita disso: diferentes nuances e sabores…cada um prefere algo distinto de quem está ao lado.

Já acreditei mais na mudança das pessoas…mas ainda assim acredito e penso que tem gente que talvez não tenha aflorado sua essência verdadeira e sou franca em dizer que sempre fui de estender a mão, de ajudar, de dar apoio e muitas vezes me estrepei bastante nisso (fazer o quê? faz parte da minha natureza o “não dar as costas”…abomino gente que faz isso), afinal, tem gente que vive do roubo da energia vital e de afeto de gente que se dispõe a fazer isso pelos outros..ladrões dos bens mais preciosos: os que estão em almas e corações.

Cada vez mais eu percebo que quem fere os outros na mais profunda atitude egoísta\egóica nunca se dá bem depois…existe equilíbrio no Universo. Um dia a balança pende aqui e outra, acolá.

Vingança pessoal não leva a nada – mas que ninguém venha enfiar o dedo na minha boca pensando que estará escancarada de dentes esperando a morte chegar. Vingança para mim cada dia mais se torna apenas uma satisfação momentânea e vazia, pois não desfaz um ato sujo e mancha mais ainda quem resolve atolar a mãozinha lá….e no final, a terra é redonda…a roda gira e logo as pessoas ficam cara a cara…

Por isso, tão melhor atitudes limpas e jogo limpo… não é agradável abaixar a cabeça perante o outro por vergonha de supostos atos baixos cometidos (sou a favor da integridade a qualquer custo).

Desculpas são muito fáceis de serem pedidas mas dá-las envolvem muitos outros temas: é preciso que ela brote muito do fundo pois dizer da boca pra fora de nada adianta e eu não creio ser hipócrita nessa vida…não costuma ser do meu feitio dizer uma coisa e sentir outra ou falar uma coisa e fazer outra (e só eu sei o quanto já senti o peso de ser assim) e se eu não desculpo, não desculpei mesmo. E azar o meu, ponto final. Um dia quem sabe eu possa desculpar? E essa resposta não pertence a mim, mas ao tempo mesmo.

Sempre tive o maior cuidado com o contato com o outro mas perfeição não existe na condição humana…quando errei pedi desculpas, me expliquei, voltei atrás e busquei a reconciliação…me constrange e me faz muito mal pensar que fui mesquinha, pequena ou egoísta e que eu não gostaria que certos sentimentos que eu causei me fossem causados… então, sempre que perdi minha linha eu fui lá e me redimi…e não me arrependo de nenhuma dessas situações pois ela refletiam quem sou. E admiro muito quem faz o mesmo: prova de passar por cima de ego, de orgulho…e até hoje quem veio e falou comigo após coisas assim eu aceitei e me dei por satisfeita…e cada qual seguiu sua estradinha.

Muito sinceramente digo que não guardo raiva, de verdade, pois quando abandono algo (amizade, contato, relacionamento…) e houve muita sujeira, raramente até toco no(s) nome(s) depois, o que resta sim é muita mágoa e só com o tempo eu vou dissolvendo isso…a vida segue seu curso e as relações se reciclam, outras surgem para um eu transformado pelas experiências vividas…quem não se transforma revive com outros rostos e roupagens as mesmas situações e digo como alguém que vivenciou isso o quanto é cansativo, destrutivo e doloroso não ter superado algo e ter de revivê-lo…dor revivida vem muito mais intensificada e o sabor, se antes podia ser ligeiramente amargo, se torna puro fel, mas ainda assim, como diz a língua do Povo, uma coisa não ter termina até ter acabado (apesar de tantas vezes querer que tudo seja como o dia e a noite, bem seguidos um do outro) e entendo que às vezes é preciso muito tempo até que algo se finde pra valer.

Esse blá blá blá todo não é em virtude de nada nem ninguém. São só reflexões mesmo…de alguém que está sempre errando, aprendendo e transformando seu interior…que vem e cospe as palavras para depois (se for necessário) vir e engoli-las todas a seco se for preciso.

Não tenho esses apegos bobos de gente que morre gritando uma lorota qualquer somente para dizer que é convicto. Eu sou convicta de uma coisa apenas: A VERDADE NUNCA DORME… ela pode até passear longe de você, mas uma hora ela aparece na sua porta para expor o âmago de tudo…mesmo que seja pra te deixar em completa nudez perante uma multidão…então, melhor não ter vergonha nunca de nada, não é?

Eu, pelo meu lado, deito minha cabeça no travesseiro e durmo em paz…satisfeita em realizar até o fim tudo o que sempre está ao meu alcance e sem levar comigo convicções idiotas ou orgulho em demasiado ao ponto de passar por cima de todos, inclusive de minha própria pessoa.

E acho que chega de acidez mental por hoje…mas estou com outras idéias fomentando aqui, rs… mais adiante eu faço outro post (se conseguir concatená-las todas e tiver tempo).

Poema da amante

Posted in Literatura, Poesias on Novembro 23, 2010 by lapicta

Alguns poemas falam por si só… E eu deixo que esse diga o que precisa dizer…pois fala por si só. Ah sim… ele é uma declaração…daquelas que nem sempre a gente consegue sentir ou dizer.

Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos,
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.
Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita dos tempos
Até a região onde os silêncios moram.
Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.
Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
E em tudo que ainda estás ausente.
Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.
Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.

(Adalgisa Nery – Mundos oscilantes)

 

Posted in Literatura, Poesias, Reflexões on Novembro 22, 2010 by lapicta


Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta coisa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós…
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas…
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.
Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

Fernando Pessoa

Björk – Human Behaviour

Posted in Músicas, Reflexões on Novembro 10, 2010 by lapicta

Human Behaviour

If you ever get close to a human
And human behaviour
Be ready, be ready to get confused
And me and my here after

There’s definitely, definitely, definitely no logic
To human behaviour
But yet so, yet so irresistible
And me and my fear cannot

And there is no map uncertain

They’re terribly, terribly, terribly moody
Of human behaviour
Then all of a sudden turn happy
And they and my here after

But, oh, to get involved in the exchange
Of human emotions
Is ever so, ever so satisfying
And they and my here

And there is no map uncertain

Human behaviour, human behaviour
Human behaviour, human behaviour

There’s no map
And a compass
Wouldn’t help at all
Uncertain

Human behaviour, human, human
Human behaviour, human behaviour

There’s definitely, definitely, definitely no logic
Human, human, human

Comportamento Humano

Se você alguma vez chegar perto de um humano
E do comportamento humano
Esteja preparado (esteja preparado) para ficar confuso

Não há, definitivamente (definitivamente, definitivamente), lógica alguma
Para o comportamento humano
Mas, ainda assim, tão (ainda assim, tão) irresistível

E não há mapa algum

Eles estão terrivelmente mal-humorados
(Comportamento humano)
Então, de repente, ficam felizes
Mas, oh, se envolver na troca
Das emoções humanas é sempre tão (sempre tão) satisfatório

E não há mapa algum

Comportamento humano…

E não há mapa algum
E uma bússola
Não ajudaria em nada

Comportamento humano…

Não há, definitivamente (definitivamente, definitivamente), lógica alguma
Humano…

Não há, definitivamente (definitivamente, definitivamente), lógica alguma
Humano…

Mentiras consensuais – Martha Medeiros

Posted in dia_a_dia, Reflexões on Novembro 4, 2010 by lapicta

Recebi esse texto reflexivo de uma amiga e esses dias o encontrei…

É bem o gênero de divagações que gosto: que toca no não falado, no escondido pelos sorrisos amarelos e pelas vidas de fachada.

A quem for de reflexão, boas divagações!

Mentiras consensuais

Existem pessoas felizes e pessoas infelizes, e todas elas se questionam.
Umas bebem champanhe e outras água da torneira, e se fazem as mesmas indagações. Se existe uma coisa que nos unifica são as dúvidas que trazemos dentro. São pequenas angústias que se manifestam silenciosamente, angústias
que não gritam, ou gritam somatizadas em úlceras, insônias e depressões. Angústias diante das mentiras consensuais.

O que são mentiras consensuais? São aquelas que todo mundo topou passar adiante como se fosse verdade. Aquelas que ouvimos de nossos pais, eles de nossos avós, e que automaticamente passamos para nossos filhos, colaborando
assim para o bom andamento do mundo, para uma sanidade comum. O amor, o sentimento mais nobre e vulcânico que há, tornou-se a maior vítima deste consenso.

Mentiras consensuais: o amor não acaba, não se pode amar duas pessoas ao mesmo tempo, quem ama quer filhos, quem ama não sente desejo por outro, amor de uma noite só não é amor, o amor requer vida partilhada, amor entre
pessoas do mesmo sexo é antinatural.

Tudo mentira. O amor, como todo sentimento, é livre. É arredio a frases feitas, debocha das regras que tentam lhe impor. Esta meia dúzia de coordenadas instituídas como verdades fazem com que muitas pessoas achem que
estejam amando errado, quando estão simplesmente amando. Amando pessoas mais jovens ou mais velhas ou do mesmo sexo ou amando pouco ou amando com exagero, amando um homem casado ou uma mulher bandida ou platonicamente, amando e ganhando, todos eles, a alcunha de insanos, como se pudéssemos controlar o sentimento. O amor é dono dele mesmo, somos apenas seu hospedeiro.

Há outros consensos geradores de angústia: o mito da maternidade, a necessidade de um Deus, a juventude eterna. Sobem e descem de ônibus milhares de passageiros que parecem iguais entre si, porém há entre eles os que não gostam de crianças, os que nunca rezaram, os que estão muito satisfeitos com suas rugas e gorduras, os que não gostam de festas e viagens, os que odeiam futebol, os que viverão até os cem anos fumando, os que conversam telepaticamente com extraterrestres, os ermitões, enfim, os desajustados de um mundo que só oferece um molde.

Todos nós, que estamos quites com as verdades concordadas, guardamos, lá no fundo, algo que nos perturba, que nos convida para o exílio, que revela nossa porção despatriada. É a parte de nós que aceita a existência das mentiras consensuais, entende que é melhor viver de acordo com o estabelecido, mas que, no íntimo, não consegue dizer amém.

Martha Medeiros

Vozes de uma Sombra

Posted in Espiritualidade, Literatura, Poesias, Reflexões on Novembro 2, 2010 by lapicta

Donde venho?
Das eras remotíssimas,
Das substâncias elementaríssimas,
Emergindo das cósmicas matérias,
Venho dos invisíveis protozoários,
Da confusão dos seres embrionários,
Das células primevas, das bactérias.

Venho da fonte eterna das origens,
No turbilhão de todas as vertigens,
Em mil transmutações, fundas e enormes;
Do silêncio da mônada invisível,
Do tetro e fundo abismo, negro e horrível
Vitalizando corpos multifomes.

Sei que evolvi e sei que sou oriundo
Do trabalho telúrico do mundo,
Da terra no vultoso e imenso abdômem;
Sofri, desde as intensas torpitudes
Das lavras microscópicas e rudes,
À infinita desgraça de ser homem.

Na terra, apenas fui terrível presa,
Simbiose da dor e da tristeza,
Durante penosíssimos minutos;
A dor, essa tirânica incendiária,
Abatia-me a vida solitária.
Como se eu fora bruto entre os mais brutos.

Depois voltei desse laboratório,
Como me revolvi como infusório
Como animálculo medonho, obscuro
Té atingir a evolução dos seres
Conscientes de todos os deveres,
Descortinando as luzes do futuro.

E vejo os meus incógnitos problemas
Iguais a horrendos e fatais dilemas,
Enigmas insolúveis e profundos;
Sombra egressa de lousa dura e fria,
Grito ao mundo o meu grito que se alia
A todos os anseios gemebundos:-

“Homem! por mais que gaste teus fosfatos
Não saberás, analisando os fatos,
Inda que desintegres energias,
A razão do completo e do incompleto,
Como é que em homem se transforma um feto
Entre os duzentos e setenta dias.

A flor da larajeira , a asa do inseto
Um estafermo e um Tales de Mileto,
Como existiram, não perceberás
E nem compreenderá como se opera
A mutação do inverno em primavera,
E a transubstanciação da guerra em paz;

Como vivem o novo e o obsoleto,
O ângulo obtuso e o ângulo reto
Dentro das linhas da geometria;
A luz de Miquelângelo nas artes,
E o espírito profundo de Descartes
No eterno estudo da filosofia.

Porque existem as crianças e os macróbios
Nas coletividades dos micróbios
Que fazem a vida enferma e a vida sã;
Os antigos remédios alopatas
E as modernas dosagens homeopatas,
Produto das experiências de Hahnemann.

A psíquico-análise freudiana
Tentando aprofundar a alma humana
Com a mais requintadíssima vaidade,
E as teorias do Espiritualismo
Enchendo os homens todos de otimismo,
Mostrando as luzes da imortalidade.

Como vive o canário junto ao corvo,
O céu iluminado, o inferno torvo
Nos absconsos refolhos da consciência;
O laconismo e a prolixidade,
A atividade e a inatividade,
A noite da ignorância e o sol da ciência.

As epidermes e as aponevroses,
As grandes atonias e as nevroses,
As atrações e as grandes repulsões,
Que reunindo os átomos no solo
Tecem a evolução de pólo a pólo,
Em prodigiosas manifestações.

Como os degenerados blastodermas
Criam a descendência dos palermas
No lupanar das pobres meretrizes.
Junto dos palacetes higiênicos,
Onde entre gozos fúlgidos e edênicos
Cresce a alegre progênie dos felizes.

Os lombricóides mínimos, os vermes,
Em contraposição com os paquidermes,
Assombrosas antíteses no mundo;
É o gigante e o germe originário,
Os milhões de corpúsculos do ovário,
Onde há somente um óvulo fecundo.

A alma pura do Cristo e a de Tibério,
Vaso de carne podre, o cemitério,
E o jardim rescendendo de perfumes;
O doloroso e tetro cataclism
Da beleza louçã do organismo,
Repleto de dejetos e de estrumes.

As coisas substânciais e as coisas ocas,
As idéias conexas e as loucas,
A teoria Cristã e Augusto Comte;
E o desconhecido e o devassado,
E o que é o ilimitado e o limitado
Na ótica ilusória do horizonte
Os terrenos povoados e o deserto.
Aquilo que está longe e o que está perto;
O que não tem sinal e o que não tem marca;
A funda simpatia e a antipatia,
A atrofia e a hipertrofia,
Como as tuberculosos e a anasarca.

O fenômenos todos geológicos,
Psíquicos, cientificos, sociológicos,
que inspiram pavor e inspiram medo;
Homem! por mais que a idéia tu gastes,
Na solução de todos os contrastes,
Não saberá o cósmico segredo.

E apesar da teoria mais abstrusa
Dessa ciência inicial, confusa,
A que se acolhem míseros ateus,
Caminharás lutando além da cova,
Para a vida que eterna se renova,
Buscando as perfeições do Amor em Deus.”

Parnaso de Além Túmulo
Augusto dos Anjos/Psicografia de Chico Xavier

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